terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Estética - Criatividade e Imaginação



Criatividade como capacidade humana

 Levando em conta essa discussão, percebemos que a criatividade é uma capacidade humana que não fica confinada no território das artes, mas que também é necessária à ciência e à vida em geral. A ciência não poderia progredir se alguns espíritos mais criativos não tivessem percebido relações entre fatos aparentemente desconexos, se não tivessem testado essas suas hipóteses e chegado a novas teorias explicativas dos fenômenos.

A imaginação

 O processo de trabalho do cientista aproxima -se do processo de trabalho do artista. Ambos desenvolvem um tipo de comportamento denominado "exploratório", isto é, dedicam-se a "explorar" as possibilidades, "o que poderia ser", em vez de se deter no que realmente é. Para isso, necessitam da imaginação. Assim, um dos sentidos de criar é imaginar. Imaginar é a capacidade de ver além do imediato, do que é, de criar possibilidades novas. É responder à pergunta: "Se não fosse assim, como poderia ser?". Se dermos asas à imaginação, se deixarmos de lado o nosso senso critico e o medo do ridículo, se abandonarmos as amarras lógicas da realidade, veremos que somos capazes de encontrar muitas respostas para a pergunta.Este é o chamado pensamento divergente, que leva a muitas respostas possíveis. É o contrário do pensamento convergente, que leva a uma única resposta, considerada certa. Por exemplo, à pergunta "Quem descobriu o Brasil?", só há uma resposta certa: Pedro Álvares Cabral. Para a pergunta "Se os portugueses não tivessem descoberto o Brasil, como estaríamos vivendo hoje?", há inúmeras respostas possíveis. A primeira envolve memória; a segunda, imaginação. Tanto o artista quanto o cientista têm de ser suficientemente flexíveis para sair do seguro, do conhecido, do imediato, e assumir os riscos ao propor o novo, o possível.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Estética - Criatividade

 
Criatividade

 Quando começamos a discutir sobre criatividade, parece sempre que ingressamos num universo um tanto mágico, habitado por seres escolhidos pelos deuses, seres que possuem o dom da criatividade, geralmente na área de artes, que é negado ao comum dos mortais. Chamamos de criativas as pessoas que sabem desenhar, tocam algum instrumento, têm alguma habilidade manual "especial", como pintar camisetas ou ser bom marceneiro; enfim, as que sabem fazer coisas que a maioria das pessoas (principalmente nós) não sabe.

 Será que basta habilidade técnica para ser criativo? Ou será que a criatividade envolve processos mais complexos?
 Vamos começar a discutir esse assunto partindo de alguns significados da palavra criar e de seus derivados criador, criatividade e criativo que constam do dicionário: criar. V. t. d. 1. Dar existência a; tirar do nada. 2. Dar origem a; gerar, formar. 3. Dar principio a; produzir, inventar, imaginar, suscitar.    Criador. Adj. 3. Inventivo, fecundo, criativo . criatividade. £ f 1. Qualidade de criativo. Criativo. Adj. Criador.

 Podemos ver, nesses vocábulos, que a criatividade pressupõe um sujeito criador, isto é, uma pessoa inventiva que produz e dá existência a algum produto que não existia anteriormente. Vemos, também, que imaginar é uma forma de inventar ou criar um produto. Portanto, esse produto da atividade criativa de um sujeito não é, necessariamente, um objeto palpável, mas pode ser uma idéia, uma imagem, uma teoria. Agora estamos prontos para abordar alguns conceitos elaborados por psicólogos que vêm se dedicando à pesquisa na área da criatividade e levantando várias hipóteses sobre as pessoas criativas. Diz Ghiselin que a medida da criatividade de um produto "está na extensão em que ele reestrutura nosso universo de compreensão"(2) ou, segundo Laklen, a medida da criatividade é "a extensão da área da ciência que a contribuição abrange."

Critérios de determinação da criatividade

Podemos notar que as definições de Ghiselin e Laklen medem a criatividade através do critério da abrangência de seus efeitos, isto é, quanto mais um a contribuição (seja ela um objeto ou uma idéia) remexer nossas crenças estabelecidas, quanto mais revolucionar o nosso universo de saber (o que temos como sendo o "certo", o "indiscutível"), mais criativa ela será. Notamos, também, que em todos es ses conceitos já está inserida a idéia do novo. A obra verdadeiramente criativa traz algum tipo de novidade que nos obriga a rever o que já conhecíamos, dando-lhe uma nova organização. Acontece quando exclamamos: "Nossa, nunca tinha percebido isso!". O novo que a obra criativa nos propõe, no entanto, não é gratuito, ou seja, a novidade não aparece só por ser novidade. Podemos, então, dizer que tudo que é criativo é novo, mas nem tudo que é novo é criativo. Explicando melhor: a inovação aparece com relação a um dado problema ou a uma dada situação, solucionando-a ou esclarecendo-a. A inovação surge, geralmente, do remanejo do conhecimento existente que revela insuspeitados parentescos ou semelhanças entre fatos já conhecidos que não pareciam ter nada em comum. Assim, Gutenberg resolveu o problema da impressão ao ver uma prensa de uvas para fazer vinho. Aparentemente, uvas e vinho, de um lado, e papel e letra. de outro, nada tinham em comum, e no entanto foi a partir do procedimento para fazer vinho que Gutenberg pensou em pressionar papel contra tipos molhados de tinta.
 Já temos, pois, mais um critério para medir a criatividade: a inovação, além da abrangência já citada. Não podemos esquecer, no entanto, que a inovação tem de ser relevante, isto é, adequada à situação. Um ato, uma idéia ou um produto é criativo quando é novo, adequado e abrangente.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O Conhecimento - Formas de Conhecer Intuição


Formas de Conhecer Intuição

 Se perguntarmos "de que modo o sujeito que conhece pode apreender o real?", a resposta imediata que nos vem a mente é que o homem conhece pela razão, pelo discurso. Mas nós apreendemos o real também pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato, isto é, feito sem intermediários, um pensamento presente ao espírito. Como a própria palavra indica (tueriem latim significa "ver"), intuição é uma visão súbita. Enquanto o raciocínio é discursivo e se faz por meio da palavra, a intuição é inefável, inexprimível: como poderíamos explicar em que consiste a sensação do vermelho? A intuição é importante por ser o ponto de partida do conhecimento, a possibilidade da invenção, da descoberta, dos grandes "saltos" do saber humano. Partindo de uma divisão muito simplificada, a intuição pode ser de vários tipos:

- intuição sensível é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos: sentimos que faz calor; vemos que a blusa é vermelha; ouvimos o som do violino.

- intuição inventiva é a do sábio, do artista, do cientista, quando repentinamente descobrem uma nova hipótese, um tema original. Também na vida diária, enfrentamos situações que exigem solluções criativas, verdadeiras invenções súbitas.

- intuição intelectual é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto. Por exemplo, a descoberta de Descartes do cogito (eu pensante) enquanto primeira verdade indubitável.

Conhecimento discursivo

Para compreender o mundo, para "organizar o caos", a razão supera as informações concretas e imediatas que recebe, organizando-as em conceitos ou ideias gerais que, devidamente articulados, podem levar à demonstração e a conclusões que se consideram verdadeiras. Diferentemente da intuição, a razão é por excelência a faculdade de julgar.
 Chamamos conhecimento discursivo ao conhecimento mediato, isto é, aquele que se dá por meio de conceitos. É o pensamento que opera por etapas, por um encadeamento de ideias, juízos e raciocínios que levam a determinada conclusão. Para tanto, a razão precisa realizar abstrações. Abstrair significa "isolar", "separar de". Fazemos uma abstração quando isolamos, separamos um elemento de uma representação, elemento este que não é dado separadamente na realidade (representação significa a imagem, ou a ideia da "coisa" enquanto presente no espírito). Quando vemos um cinzeiro, temos inicialmente a imagem dele, uma representação mental de natureza sensível e de certa forma concreta e particular, porque se refere aquele cinzeiro especificamente (por exemplo, de forma hexagonal e de cristal transparente). Quando abstraímos, isolamos essas caracteristicas por serem secundárias. e consideramos apenas o "ser cinzeiro". Resulta daí o conceito ou idéia de cinzeiro, que é a repreprsentação intelectual de um objeto e, portanto imaterial e geral. Ou seja, a ideia de cinzeiro não se refere aquele cinzeiro particular, mas a qualquer objeto que sirva para recolher cinzas. Da mesma forma, podemos abstrair do cinzeiro a forma ou a cor, que de fato não existem fora da coisa real.
 O matemático reduz as coisas que têm peso, dureza, cor, para só considerar a quantidade. Por exemplo, quando dizemos 2, consideramos apenas o número, deixando de lado se são duas pessoas ou duas frutas. A lei científica também é abstrata. Quando concluímos que o calor dilata os corpos, fazemos abstração das características que distinguem cada corpo para considerar apenas os aspectos comuns aqueles corpos, ou seja, o corpo em geral enquanto submetido a ação do calor. Ora, quanto mais tornamos abstrato um conceito, mais nos distanciamos da realidade concreta. Esse artifício da razão é importante enquanto possibilidade de transcendência, para a superação do "aqui e agora" e construção de hipóteses transformadoras do real. No entanto, toda vez que a razão se distancia demais do vivido, a teoria se petrifica e o conhecimento é empobrecido. 
 Na filosofia contemporânea, a crítica às formas esclerosadas do racionalismo exacerbado faz retomar o valor da intuição em pensadores como Bergson, Dilthey, Husserl. Da mesma forma, permanecer no nível do vivido e da intuição impede o distanciamento fecundo da razão que interpreta e critica. O verdadeiro conhecimento se faz, portanto, pela ligação continua entre intuição e razão, entre o vivido e o teorizado, entre o concreto e o abstrato.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

O Conhecimento - O que é Conhecimento?


O que é Conhecimento?

 "Pedimos somente um pouco de ordem para nos proteger do caos. Nada é mais doloroso, mais angustiante do que um pensamento que escapa a si mesmo, ideias que fogem, que desaparecem apenas esboçadas, já corroídas pelo esquecimento ou precipitadas em outras, que também não dominamos"

 O trecho acima se refere ao esforço constante que anima o homem a compreender. Diante do caos que não significa vazio, mas desordem procuramos estabelecer semelhanças, diferenças, contiguidades, sucessão no tempo, causalidades, que possibilitem "pôr ordem no caos". Mesmo porque só assim será possível ao homem também agir sobre o mundo e tentar transformá-lo. O conhecimento é o pensamento que resulta da relação que se estabelece entre o sujeito que conhece e o objeto a ser conhecido. A apropriação intelectual do objeto supõe que haja regularidade nos acontecimentos do mundo; caso contrário, a consciência cognoscente nunca poderia superar o caos. Por exemplo, Kant diz: "Se o cinábrio [minério de mercúrio] fosse ora vermelho, ora preto, ora leve, ora pesado (...), minha imaginação empírica nunca teria ocasião de receber no pensamento, com a representação) da cor vermelha, o cinábrio pesado".
 O conhecimento pode designar o ato de conhecer, enquanto relação que se estabelece entre a consciência que conhece e o mundo conhecido. Mas o conhecimento também se refere ao produto, ao resultado do conteúdo desse ato, ou seja, o saber adquirido e acumulado pelo homem. Na verdade, ninguém inicia o ato de conhecer de uma forma virgem, pois esse ato é simultâneo à transmissão pela educação dos conhecimentos acumulados em uma determinada cultura. No correr dos tempos, a razão humana adquire formas diferentes, dependendo da maneira pela qual o homem entra em contato com o mundo que o cerca. A razão é histórica e vai sendo tecida na trama da existência humana. Então, a capacidade que o homem tem, em determinado momento, de discernir as diferenças e as semelhanças, e de definir as propriedades dos objetos que o rodeiam, estabelece o tipo de racionalidade possível naquela circunstância. (Deleuze e Guattari)
 A apreensão que fazemos do mundo não é sempre tematizada, sendo inicialmente pré-reflexiva. E isso vale tanto para o homem das sociedades tribais e para a criança como para nós, no cotidiano da nossa vida. Não é sempre que estamos refletindo sobre o mundo (ainda bem!), e a abordagem que dele fazemos se encontra primeiro no nível da intuição, da experiência vivida.
 Se de início o homem precisa de crenças e opiniões prontas (nas formas de mito ou do senso comum), a fim de apaziguar a aflição diante do caos e adquirir segurança para agir, em outro momento é preciso que ele seja capaz de "reintroduzir o caos", criticando as verdades sedimentadas, abrindo fissuras e fendas no "já conhecido", de modo a alcançar novas interpretações da realidade. Todo conhecimento dado tende a esclerosar-se no hábito, nos clichês, no preconceito, na ideologia, na rigidez das "escolas". Esse conhecimento precisa ser revitalizado pela construção de novas teorias (no caso da filosofia e da ciência) e pelo despertar de novas sensibilidades (no caso da arte). Pelo esforço resultante do questionamento, a razão elabora o trabalho de conceituação, que tende a se tornar cada vez mais complexo, geral e abstrato. A ação do homem, inicialmente "colada" ao mundo, é lentamente elucidada pela razão, que permite "viver em pensamento" a situação que ele pretende compreender e transformar. Com isso não estamos dizendo que o pensar humano possa ficar separado do agir (sabemos como essa relação é dialética), mas que o próprio pensamento torna-se objeto do pensamento: instala-se a fase de auto-reflexão e crítica do conhecimento anteriormente recebido.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

[Download] Manifesto do Partido Comunista - Karl Marx e Friedrich Engels



Karl Marx e Friedrich Engels tinham, respectivamente, 30 e 28 anos quando o Manifesto do Partido Comunista foi publicado, em 1848. Este texto transformou o mundo e suas relações. A luta de classes foi declarada o motor da história e do progresso da humanidade. O Manifesto pregava a destruição da ordem burguesa e todo o poder aos excluídos. Perpetrado como um hino a uma utopia coletivista e humanitária, este texto modificou a história.

O Homem - Trabalho e Alienação - O que é Alienação?


O que é Alienação?

 Hegel, filósofo alemão do século XIX, faz uma leitura otimista da função do trabalho na célebre passagem "do senhor e do escravo", descrita na Fenomenologia do espírito. O filósofo se refere a dois homens que lutam entre si e um deles sai vencedor, podendo matar o vencido; este se submete, não ousando sacrificar a própria vida. A fim de ser reconhecido como senhor, o vencedor "conserva" o outro como "servo". Depois disso, é o servo submetido que tudo faz para o senhor; mas, com o tempo, o senhor descobre que não sabe fazer mais nada, pois, entre ele e o mundo, colocou o escravo, que domina a natureza. O ser do senhor se descobre como dependente do ser do escravo e, em compensação, o escravo, aprendendo a vencer a natureza, recupera de certa forma a liberdade. O trabalho surge, então, como a expressão da liberdade reconquistada. Marx retoma a temática hegeliana, mas critica a visão otimista do trabalho ao demonstrar como o objeto produzido pelo trabalho surge como um ser estranho ao produtor, não mais lhe pertencendo: trata-se do fenômeno da alienação.
 Em Hegel também surge o conceito de alienação. Em sua pespectiva, ela corresponde ao momento em que o espírito "sai de si" e se manifesta na construção da cultura. Essa cisão provocada pelo espírito que se exterioriza na cultura (por meio do trabalho) é superada pelo trabalho da consciência, que nesse estágio superior é consciente de si. Com isso, segundo Marx, ao privilegiar a consciência, Hegel perde a materialidade do trabalho (o que se compreende dentro da linha idealista do pensamento hegeliano). Isso não significa que Marx não considere o trabalho condição da liberdade. Ao contrário, esse é o ponto central do seu raciocínio. Para ele, o conceito supremo de toda concepção humanista está em que o homem deve trabalhar para si, não entendendo isso como trabalho sem compromisso com os outros, pois todo trabalho é tarefa coletiva, mas no sentido de que deve trabalhar para fazer-se a si mesmo homem. O trabalho alienado o desumaniza.

Conceituação de Alienação

 Há vários sentidos para o conceito de alienação. Juridicamente, significa a perda do usufruto ou posse de um bem ou direito pela venda, hipoteca etc. Nas esquinas costumamos ver cartazes de marreteiros chamando a atenção dos motoristas: "Compramos seu carro, mesmo alienado". Referimo-nos a alguém como alienado mental, dizendo, com isso, que tal pessoa é louca. Aliás, alienista é o médico de loucos.
 A alienação religiosa aparece nos fenômenos de idolatria, quando um povo cria ídolos e a eles se submete. Para Rousseau, a soberania do povo é inalienável, isto é, pertence somente ao povo, que não deve outorgá-la a nenhum representante, devendo ele próprio exercê -la. É o ideal da democracia direta.
 Na vida diária, chamamos alguém de alienado quando o percebemos desinteressado de assuntos considerados importantes, tais como as questões políticas e sociais. Em todos os sentidos, há algo em comum no uso da palavra alienação: no sentido jurídico, perde-se a posse de um bem; na loucura, o louco perde a dimensão de si na relação com o outro; na idolatria, perde-se a autonomia; na concepção de Rousseau, o povo não deve perder o poder; o homem comum alienado perde a compreensão do mundo em que vive e torna alheio a sua consciência um segmento importante da realidade em que se acha inserido.
 Etimologicamente a palavra alienação vem do latim alienare, alienas, que significa "que pertence a um outro". E outro é alius. Sob determinado aspecto, alienar é tornar alheio, transferir para outrem o que é seu. Para Marx, que analisou esse conceito básico, a alienação não é puramente teórica, pois se manifesta na vida real do homem, na maneira pela qual, a partir da divisão do trabalho, o produto do seu trabalho deixa de lhe pertencer. Todo o resto é decorrência disso.
 Retomando a discussão anterior, vimos que o surgimento do capitalismo determinou a intensificação da procura do lucro e confinou o operário à fábrica, retirando dele a posse do produto. Mas não é apenas o produto que deixa de lhe pertencer. Ele próprio abandona o centro de si mesmo. Não escolhe o salário - embora isso lhe apareça ficticiamente como resultado de um contrato livre -, não escolhe o horário nem o ritmo de trabalho e passa a ser comandado de fora, por forças estranhas a ele. Ocorre então o que Marx chama de fetichismo da mercadoria e reificação do trabalhador. O fetichismo "é o processo pelo qual a mercadoria, ser inanimado, é considerada como se tivesse vida, fazendo com que os valores de troca se tornem superiores aos valores de uso e determinem as relações entre os homens, e não vice-versa. Ou seja, a relação entre os produtores não aparece como sendo relação entre eles próprios (relação humana), mas entre os produtos do seu trabalho. Por exemplo, as relações não são entre alfaiate e carpinteiro, mas entre casaco e mesa. A mercadoria adquire valor superior ao homem, pois privilegiam-se as relações entre coisas, que vão definir relações materiais entre pessoas. Com isso, a mercadoria assume formas abstratas (o dinheiro, o capital) que, em vez de serem intermediárias entre indivíduos, convertem-se em realidades soberanas e tiranicas Em consequência, a "humanização" da mercadoria leva à desumanização do homem, a sua coisificação, à reificação (do latim res, "coisa"), sendo o próprio homem transformado em mercadoria (sua força de trabalho tem um preço no mercado). As discussões a respeito da alienação preocuparam autores marxistas como Lukács, Erich Fromm e Althusser, entre outros, e filósofos existencialistas e personalistas como Sartre, o cristão Mounier e o não-marxista Heidegger, que descreveram os modos inautênticos do existir humano.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Homem - Trabalho e Alienação - Nascimento das Fábricas e Urbanização


Nascimento das Fábricas e Urbanização

Na vida social e econômica ocorrem, paralelamente ao desenvolvimento descrito, sérias transformações que determinam a passagem do feudalismo ao capitalismo. Além do aperfeiçoamento das técnicas, dá -se o processo de acumulação de capital e a ampliação dos mercados. O capital acumulado permite a compra de matérias -primas e de máquinas, o que faz com que muitas famílias que desenvolviam o trabalho doméstico nas antigas corporações e manufaturas tenham de dispor de seus antigos instrumentos de trabalho e, para sobreviver, se vejam obrigadas a vender a força de trabalho em troca de salário.
 Com o aumento da produção aparecem os primeiros barracões das futuras fábricas, onde os trabalhadores são submetidos a uma nova ordem, a da divisão do trabalho com ritmo e horários preestabelecidos. O fruto do trabalho não mais lhes pertence e a produção é vendida pelo empresário, que fica com os lucros. Está ocorrendo o nascimento de uma nova classe: o proletariado.
 No século XVIII, a mecanização no setor da indústria têxtil sofre impulso extraordinário na Inglaterra, com o aparecimento da máquina a vapor, aumentando significativamente a produção de tecidos. Outros setores se desenvolvem, como o metalúrgico; também no campo se processa a revolução agrícola.
 No século XIX, o resplendor do progresso não oculta a questão social, caracterizada pelo recrudescimento da exploração d o trabalho e das condições subumanas de vida: extensas jornadas de trabalho, de dezesseis a dezoito horas, sem direito a férias, sem garantia para a velhice, doença e invalidez; arregimentação de crianças e mulheres, mão-de-obra mais barata; condições insalubres de trabalho, em locais mal-iluminados e sem higiene; mal pagos, os trabalhadores também viviam mal alojados e em promiscuidade. Da constatação deste estado de coisas é que surgem no século XIX os movimentos socialistas e anarquistas, que pretendem denunciar e alterar a situação.