Formas de Conhecer Intuição
Se perguntarmos "de que modo o sujeito que conhece pode apreender o real?", a resposta imediata que nos vem a mente é que o homem conhece pela razão, pelo discurso. Mas nós apreendemos o real também pela intuição, que é uma forma de conhecimento imediato, isto é, feito sem intermediários, um pensamento presente ao espírito. Como a própria palavra indica (tueriem latim significa "ver"), intuição é uma visão súbita. Enquanto o raciocínio é discursivo e se faz por meio da palavra, a intuição é inefável, inexprimível: como poderíamos explicar em que consiste a sensação do vermelho? A intuição é importante por ser o ponto de partida do conhecimento, a possibilidade da invenção, da descoberta, dos grandes "saltos" do saber humano. Partindo de uma divisão muito simplificada, a intuição pode ser de vários tipos:
- intuição sensível é o conhecimento imediato que nos é dado pelos órgãos dos sentidos: sentimos que faz calor; vemos que a blusa é vermelha; ouvimos o som do violino.
- intuição inventiva é a do sábio, do artista, do cientista, quando repentinamente descobrem uma nova hipótese, um tema original. Também na vida diária, enfrentamos situações que exigem solluções criativas, verdadeiras invenções súbitas.
- intuição intelectual é a que se esforça por captar diretamente a essência do objeto. Por exemplo, a descoberta de Descartes do cogito (eu pensante) enquanto primeira verdade indubitável.
Conhecimento discursivo
Para compreender o mundo, para "organizar o caos", a razão supera as informações concretas e imediatas que recebe, organizando-as em conceitos ou ideias gerais que, devidamente articulados, podem levar à demonstração e a conclusões que se consideram verdadeiras. Diferentemente da intuição, a razão é por excelência a faculdade de julgar.
Chamamos conhecimento discursivo ao conhecimento mediato, isto é, aquele que se dá por meio de conceitos. É o pensamento que opera por etapas, por um encadeamento de ideias, juízos e raciocínios que levam a determinada conclusão. Para tanto, a razão precisa realizar abstrações. Abstrair significa "isolar", "separar de". Fazemos uma abstração quando isolamos, separamos um elemento de uma representação, elemento este que não é dado separadamente na realidade (representação significa a imagem, ou a ideia da "coisa" enquanto presente no espírito). Quando vemos um cinzeiro, temos inicialmente a imagem dele, uma representação mental de natureza sensível e de certa forma concreta e particular, porque se refere aquele cinzeiro especificamente (por exemplo, de forma hexagonal e de cristal transparente). Quando abstraímos, isolamos essas caracteristicas por serem secundárias. e consideramos apenas o "ser cinzeiro". Resulta daí o conceito ou idéia de cinzeiro, que é a repreprsentação intelectual de um objeto e, portanto imaterial e geral. Ou seja, a ideia de cinzeiro não se refere aquele cinzeiro particular, mas a qualquer objeto que sirva para recolher cinzas. Da mesma forma, podemos abstrair do cinzeiro a forma ou a cor, que de fato não existem fora da coisa real.
O matemático reduz as coisas que têm peso, dureza, cor, para só considerar a quantidade. Por exemplo, quando dizemos 2, consideramos apenas o número, deixando de lado se são duas pessoas ou duas frutas. A lei científica também é abstrata. Quando concluímos que o calor dilata os corpos, fazemos abstração das características que distinguem cada corpo para considerar apenas os aspectos comuns aqueles corpos, ou seja, o corpo em geral enquanto submetido a ação do calor. Ora, quanto mais tornamos abstrato um conceito, mais nos distanciamos da realidade concreta. Esse artifício da razão é importante enquanto possibilidade de transcendência, para a superação do "aqui e agora" e construção de hipóteses transformadoras do real. No entanto, toda vez que a razão se distancia demais do vivido, a teoria se petrifica e o conhecimento é empobrecido.
Na filosofia contemporânea, a crítica às formas esclerosadas do racionalismo exacerbado faz retomar o valor da intuição em pensadores como Bergson, Dilthey, Husserl. Da mesma forma, permanecer no nível do vivido e da intuição impede o distanciamento fecundo da razão que interpreta e critica. O verdadeiro conhecimento se faz, portanto, pela ligação continua entre intuição e razão, entre o vivido e o teorizado, entre o concreto e o abstrato.

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